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quarta-feira, 2 de julho de 2014

OS PRIMEIROS HABITANTES


Antes dos europeus chegarem à Amazônia, no século XVI, os povos indígenas que habitavam a região eram numerosos, divididos em diferentes nações, com línguas e costumes próprios. Basicamente, desenvolviam o cultivo da mandioca e a pesca, promoviam um intenso comércio intertribal e moravam em habitações amplas e arejadas, feitas de troncos de árvores e cobertas de palha. Dentre os povos que habitavam o Rio Negro, três se destacavam pela valentia e heroísmo ante os conquistadores: os Manáo, os Baré e os Tarumã. Os Manáo, que constituíam o grupo étnico mais importante da área, habitavam as duas margens do Rio Negro, com população estimada em cerca de 10 mil índios no Século XVII, número avaliado após os primeiros violentos choques travados com os portugueses. É nesse contexto que tem início a história da Cidade de Manaus. Francisco Orellana foi o primeiro viajante a passar pela foz do Rio Negro, em 1542. Entretanto, só em 1639, é que Pedro Teixeira toma posse da região amazônica, em nome da coroa portuguesa. Trinta anos depois, em 1669, o governador-geral do Pará ordena a construção da Fortaleza de São José do Rio Negro – um ponto militar para resguardar o rio dos invasores holandeses e espanhóis, inimigos da Coroa Portuguesa.

Ao redor do Forte da Barra é constituído um núcleo populacional denominado Lugar da Barra, onde hoje se encontra a Cidade de Manaus. Os anos 1700 são marcados pela política portuguesa de fortificação das tropas de resgate, responsável pela exterminação de cerca de 2 milhões de índios, só na região do Rio Negro. Os portugueses, impetuosos, queriam garantir a hegemonia do tráfego de sua estrada real - o Rio Amazonas - um caminho acessível a grandes riquezas. Os Manáo, liderados por Ajuricaba resistem à invasão de seu território, lutando até o fim. Na segunda década do Século XVIII, devido à escassez de mão-de-obra em Belém, Pará, foram quase que completamente exterminados por uma tropa de guerra justa dos portugueses, que aprisionou e escravizou um grande número de índios. Segundo a lenda, Ajuricaba, ainda hoje considerado símbolo de resistência, luta e coragem, suicidou-se jogando-se ao Rio Negro, acorrentado, preferindo a morte ao jugo português. Após mais de um século de fundação, o Lugar da Barra ainda era constituído por algumas casas de palha, madeira e taipa, protegidas pelo Forte da Barra, com uma população de 220 índios, 34 brancos e dois negros escravos, conforme levantamento feito pelo ouvidor Sampaio, em 1778. Havia, ainda, a capela de Nossa Senhora da Conceição, muito simples, feita de palha e chão batido.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

João Valério


João Valério foi Vereador em Itaacoatiara e eleito deputado estadual em três legislaturas seguidas pelo PMDB a partir de 1958, quando passou a residir em Manaus.

Formado em Direito pela Universidade do Amazonas em 1970, era um orador de boa qualidade destacando-se ao ocupar a tribuna da Assembléia Legislativa e respeitado por seus companheiros que ouviam com atenção  seus pronunciamentos.

João Valério deixou esposa e seis filhos, Paula, Niza, Silvia, Luzia, José Valério e João Valério Junior, este nascido em 1970.

Fonte: Baú Velho

ROCHA DOS SANTOS

Rocha dos Santos foi Juiz de Direito no Amazonas e fundador do Jornal do Comercio, cujo primeiro número circulou no dia 2 de janeiro de 1904. Suspendeu a publicação em 16 de janeiro de 1906 com o nº 644. Reapareceu em 15 de abril do mesmo ano, com o nº 645. A denominação não foi mudada.

Fonte: Baú Velho

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Povos indígenas no Amazonas


No estado do Amazonas, existe espalhada - ao redor de Manaus - de acordo com o Programa Amazonas Indígena, elaborado pela Fundação Estadual de Política Indigenista (Fepi), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - uma população indígena de 120 mil indivíduos de 66 etnias, que falam 29 línguas. É a maior população indígena do Brasil.

Confira as etnias

APURINÃ
Falam a língua apurinã, do tronco lingüístico aruak, e habitam ao longo do rio Purus e seu afluentes.

ARAPASO
Vivem no médio Uaupés, abaixo de lauareté, e no rio Negro e em São Gabriel da Cachoeira.

BANAWÁ
Também conhecidos por banawá-yafi, ocupam a região do rio Purus.

BANIWA
Vivem na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, às margens do rio Içana e seus afluentes Cuiari, Aiari e Cubate, além de comunidades no alto rio Negro/Guainía (nome do rio Negro fora do Brasil, acima da foz do rio Casiquiare) e nos centros urbanos de Santa Isabel, São Gabriel da Cachoeira e Barcelos.

BARÁ
Falam a língua tucano e são também chamados de waípinõmakã. Habitam principalmente as cabeceiras do rio Tiquié, acima do povoado de Trinidad (Colômbia); o alto Colorado e Lobo (afluentes do Pira-Paraná).

BARASANA
Esse povo vive nos igarapés Tatu, Komeya, Lobo e Colorado, afluente do Pira-Paraná, e no próprio Pira-Paraná, em território colombiano, onde se encontra a maioria de seus indivíduos.

BARÉ
Habitam a calha do rio Negro, desde o Casiquiari até seu médio curso, e ainda o baixo rio Xíe.

DENI
Habitam a região dos rios Juruá e Purus, falam o arawá.

DESANA
Vivem na região do alto rio Negro, às margens do rio Tiqué e seus afluentes.

JIAHUI
Vivem na região do médio curso do rio Madeira, no sul do Estado do Amazonas.

HI-MERIMÃ
Praticamente desconhecidos, habitam a região do médio rio Piranha, entre o Juruá e o Purus, no Amazonas.

HIXKARYANAS
Vivem na região do Baixo Amazonas.

JAMAMADI
Grupo que se inclui entre os povos pouco conhecidos da região dos rios Juruá e Purus e que sobreviveram aos ciclos da borracha, em meados do século 19.

JARAWARA
Vivem na região do médio Purus e comercializam produtos que extraem da mata, como a castanha-do-Brasil, o látex, óleo de copaíba e sorva.

JUMA
São poucos indivíduos que vivem na região do rio Purus.

KAIXANA
Este grupo, que vive na região do alto rio Solimões, fala português e nheengatu, língua desenvolvida a partir do tupinambá.

KAMBEBA
Vivem na região do triângulo Jutaí-Juruá-Solimões.

KANAMARI
Outras denominações: tukuná e canamari. Também habitam a região do triângulop Jutaí-Juruá-Solimões.

KANAMANTI
Vivem na região do rio Purus e são conhecidos também por kanamati.

KARAPANÃ
Povo que, no Brasil, se encontra disperso em alguns povoados do Tiquié e Negro; na Colômbia, vive na região do Cano, afluente do rio Uaupés.

KATUENA
Habitam a região do baixo Amazonas.

KATUKIANA
No Amazonas, vivem na região do triângulo Jutaí-Juruá-Solimões.

KATURINA
Vivem na região do triângulo Jutaí-Juruá-Solimões.

KATURINA PANO
Vivem na região dos rios Juruá e Purus, próximos ao Estado do Acre.

KAXARARI
No Amazonas, habitam a região do alto Madeira, nas proximidades de Rondônia, e podem ser encontrados nos dois Estados.

KAXINAWÁ
Vivem no Peru e no Brasil, nos vales do Purus e Juruá, nos limites dos Estadps do Acre e do Amazonas.

KOKAMA
Conhecidos como Omáguas, no Amazonas habitam as Terras Indígenas Sa potal (município de Fonte Boa), Espírito Santo (município de Jutaí), Evaré I (municípios de São Paulo de Olivença e Tabatinga) e Kokama (município de Tefé).

KORUBO
Vivem na região do vale do Javari e são conhecidos como "caceteiros" devido ao hábito de utilizarem uma borduna como arma de ataque.

KUBEO
Presentes no Amazonas, onde vivem na região noroeste, às margens do rio Uaupés e seus afluentes (alto rio Negro), e na Colômbia.

KULINA PANO
Vivem em grupos familiares ao longo do Curuçá-Javari.

KURIPACO
Vivem na região noroeste do Amazonas, no baixo médio rio Içana (alto rio Negro), acima da comunidade de Matapi.

MADIHA-KULINA
Habitam as margens dos rios Juruá e Purus, avançando sobre o Estado do Acre.

MAKU
Vivem ao longe das calhas dos rios Tiquiê, Papuri, Traíra, Curicuriari, Negro e Japurá (alto rio Negro).

MAKUNA 
Vivem principalmente no território vizinho da Colômbia. No Brasil ocupam a região do alto Castanha, afluente do Tiquié; o igarapé Onça (afluente do alto Tiquié); e o alto Tiquié.

MAWYANA
Fazem parte do grupo que habita a área Nhamundá-Mapuera, na região do baixo Amazonas, já nos limites com o Estado do Pará.

MARUBO
Maior etnia do vale do Javari.

MATIS
Vivem na região do vale do Javari,às margens do rio Ituí.

MATSÉ
Também chamados de mayoruna, vivem em grandes malocas às margens do igarapés Lobo e Quixito, no Parque Indígena do Javari, fronteira com o Peru.

MIRANHA
indios que habitam o triângulo Jutaí-Juruá-Solimões.

MIRITI-TAPUYA
Vivem na região noroeste do Amazonas, às margens do rio Uaupés e seus afluentes (alto rio Negro), e baixo e médio Tiquié.

MUNDURUKU
A maioria da população munduruku da bacia do Madeira habita a Terra Indígena Coatá-Laranjal, no município de Borba, no Amazonas. Parte deles, porém, vive fora dos territórios demarcados, ao longo da rodovia Transamazônica, nas proximidades de Humaitá.

MURA
Vivem no baixo e médio Madeira, de onde se espalharam no século 18 até São Paulo de Olivença, no Solimões; Oriximiná, no Trombetas;e a foz do Jamary, no sul.

MURA-PIRAHÃ
Habitam a região do alto e médio rio Madeira.

PARINTINTIN
Habitam a região do alto e médio rio Madeira.

PAUMARI
Povos indígenas do médio Purus.

PIRA-TAPUYA
Habitam a região noroeste do Amazonas, às margens do rio Uaupés e seus afluentes (alto rio Negro), e médio Papuri, nas proximidades de Teresina.

SATERÊ-MAWÉ
Concentram-se na região do baixo Amazonas, próximos às cidades de Maués, Barreirinha e Parintins, e às margens dos rios Maraú e Andirá.

SIRIANO
Sua maior população (665 indivíduos em 1988) encontra-se na Colômbia, mas pode ser encontrados também dispersos em rios da bacia do Uaupés e no rio Negro.

TARIANA
Atualmente vivem na região noroeste do Amazonasm às margens do médio Uaupés, baixo Papuri e alto Iauiari. O centro do povoamento fica entre as cachoeiras de Iauareté e Periquito.

TENHARIN
Consistem em três grupos indígenas que vivem no curso m+edio do Madeira, ao sul do Amazonas.

TIKUNA
Grupo étnico mais numeroso do Brasil, os tikunas ocupam 26 Terras Indígenas, habitando principalmente o alto Solimões, nos municípios de Benjamin Constant e Tabatinga, e se estendendo até o município de Manacapuru.

TORÁ
Vivem nas proximidades da foz do rio Marmelos, região do alto Madeira.

TSOHOM DJAPÁ
Perambulam pela região de cabeceira dos rios Jutaí, Curuena e Jandiatuba, no vale do rio Javari.

TUYUKA
Vivem na região noroeste do Estad, às margens do rio Uaupés e seus afluentes (alto rio Negro).

WAIMIRI-ATROARI
Vivem na região do baixo rio Negro/Solimões. São também conhecidos como Kinja Kinã, Uaimiry e Crichaná.

WAI-WAI
Ocupam a região dos rios Mapuera, Trombetas e Cachorro.

WANANO
Vivem na região noroeste do Amazonas, às ,argens do rio Uaupés, entre a cachoeira de Arara e Mitu, e seus afluentes (alto rio Negro).

WAREKENA
Habitam principalmente as margens do rio Xié e o alto rio Negro, do lado colombiano e venezuelano.

WITOTO
Vivem na região do alto Solimões, fronteira com o Peru e a Colômbia.

YANOMAMI
Vivem na região do alto e médio rio Negro, em terras brasileiras e venezuelanas.

YE´PÃMAHSA-TUKANO
Vivem na região noroeste do Amazonas, principalmente nos rios Tiquié, Papuru e Uaupés, e também no rio Negro, a jusante da foz do Uaupés, inclusive na cidade de São Gabriel da Cachoeira.

ZURUAHA
Habitam as terras altas da margem direita do rio Cuniuá, afluente do rio Tapauá, que por sua vez, é tributário do rio Purus.







sexta-feira, 9 de maio de 2014

Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa ( Roberto Mendonça )


Dicionário ortografia da época será preservada, afinal Adolpho (com ph) Lisboa assim se encontra incrustado no frontispício do Mercado Central, um marcante ícone de sua administração na Capital. Também, porque na atualidade se convencionou denotar as pessoas públicas pelo indicativo do nome e sobrenome, ou mesmo, ratificando a práxis, unicamente pelas iniciais (FHC). Assim, pois, espero desbravar esta personalidade da historiografia amazônica, admitindo o curtíssimo espaço para rememorar suas atividades.

O coronel (porque comissionado nesse posto para comandar o Regimento Militar do Estado - RME, em nossos dias, a PMAM) Adolpho Lisboa nasceu na capital da província da Bahia, "de cor morena, cabelos pretos lisos e olhos pardos", em 22 de janeiro de 1862, filho do capitão Felippe Guilherme de Miranda Lisboa, então servindo no 7º Batalhão de Infantaria do Exército, e de Olympia Rosa de Oliveira Lisboa. Sua chegada à Amazônia ocorreu aos cinco anos de idade, segundo fonte do RME, ou quando recém-nascido, conduzido por seu pai, este transferido para o 5º Batalhão da mesma arma, com sede em Belém. Esta notícia reputo mais confiável, porque o mesmo foi batizado na freguesia de Afogados, quando do trânsito da família por Recife.

Em Belém, Adolpho Lisboa viveu a sua infância e fez seus estudos primários, sem que se tenha quaisquer particularidades. Aos catorze anos de idade (1876), assentou praça no 11º Batalhão de Infantaria, na condição de 1º cadete, usufruindo de legislação pertinente, por se tratar de filho legítimo de oficial do Exército. Mesmo ocupando seu pai o posto de major reformado. Essa legislação imperial possibilizava às Forças Armadas recrutar com destaque os filhos de seus subalternos, para sanar em parte a deficiência de efetivo, diante do desinteresse público em alistar-se no Exército. Dessa maneira, o cadete Adolpho Lisboa, em 1º de março de 1878, aos dezesseis anos!, é promovido a Furriel (atual 3º sargento).

E tem mais promoções naquele ano. Em 27 de junho, foi promovido a 2º sargento. A 9 de julho, embarca "com a ala esquerda de seu batalhão" para a província do Amazonas, presidida pelo brigadeiro Rufino Eneas Gustavo Galvão, barão de Maracaju, onde desembarca no dia 16. Para a manutenção das eleições que se realizavam na província, seguiu no dia 28, ainda de junho, para Vila Bela da Imperatriz, atual Parintins, donde regressou em 15 de agosto. Por sua atuação nessa diligência, Adolpho Lisboa merece elogio do comando, publicado em ordem do dia, e inaugura sua presença no Amazonas. E, em 5 de outubro, conquista novo acesso, atingindo a graduação de 1º sargento.

Logradas estas promoções, este graduado volta-se para o oficialato. Contaria com alguma benevolência de superior, ou mesmo ainda com adjutório paterno? Ou, em linguajar corrente, apenas se "virava" na caserna em busca de progresso. A despeito de sua aptidão para o serviço militar, entretanto, tratava-se de um jovem renitente contra as ordens superiores. A leitura de sua fé-de-ofício estampa inúmeras correções que lhe foram aplicadas, ao ponto de responder Conselho de Investigação (23.07.1886), acusado de ter saído do quartel a paisano, quando impedido. Antes do veredito, o Comando das Armas liberou o acusado da prisão, por julgar suficiente o castigo. Nesta ocasião, Adolpho Lisboa, aos 24 anos, "obteve permissão para casar-se com dona Laura Leduc" (de origem francesa, consoante o historiador Antônio Loureiro), não se reconhecendo outros pormenores, inclusive sobre descendência. Apenas o registro da cerimônia realizada, em Belém, em 18 de outubro de 1886.

No final do período provincial, Adolpho Lisboa servia no Comando das Armas, na capital paraense. Ali devotou-se à movimentação pela Proclamação da República (15.11.1889), contemporâneo do então capitão Constantino Nery, que teria uma evidenciada ascendência sobre o memorializado. Este, por seu empenho neste evento nacional, foi promovido ao oficialato, em 4 de janeiro de 1890. Investido da patente, o tenente foi nomeado secretário do Comandante das Armas. O general Bento Fernandes, quando no comando do 1º Distrito, enredou-se, em Manaus, no desdobramento de uma quartelada (02.1892), que buscava depor manu militari o governador Eduardo Ribeiro. Neste funesto acontecimento, descrito com justeza pelo professor Mário Ypiranga, o tenente Adolpho Lisboa operou sua (re)apresentação na Cidade. E, igualmente acredito, que serviu para consolidar a amizade e a lealdade entre os mencionados militares.

Por ocasião da Campanha de Canudos (1897), o major Constantino Nery integrou a quarta expedição, cuja experiência verteu em trabalho literário; quanto ao tenente Lisboa, posto à disposição do governador José Paes de Carvalho, foi comissionado major fiscal no esquadrão de cavalaria da Força Policial do Pará. Em 6 de agosto, assumiu interinamente o comando deste Corpo, nele permanecendo até 4 de novembro, quando, encerrado o conflito Canudense, as tropas do Regimento Amazonense haviam transitado por Belém, e a mesma engalanada capital aguardava seus combatentes. O homenageado permaneceu no Esquadrão, comissionado no posto de tenente coronel comandante, até 22 de maio de 1900, pois aguardava a transferência para a guarnição do Amazonas.

Já eleito, ultimava a sua posse no governo do Amazonas, ocorrida em 23 de julho, o senador Silverio José Nery. Era filho primogênito de um seu homônimo, oficial do Exército, e irmão do major Antônio Constantino Nery, que haveria de sucedê-lo no quadriênio seguinte. Como havia uma ligação mais que profissional entre os irmãos Nery e o tenente Adolpho Lisboa, Silverio nomeou-o, em 12 de dezembro, coronel comandante do Regimento Militar do Estado. Convém especificar que a força policial usufruía de transbordante momento, tanto em efetivo, distribuído em dois batalhões, quanto em material de cavalaria e de artilharia, além de serviços próprios das armas do Exército. Haviam duas bandas de música! Para tanto deleite, recordo que a Capital amazonense transitava no ápice do período áureo da borracha.

Em 10 de janeiro seguinte, o comandante do RME foi obrigado a viajar até Belém, a fim de responder processo criminal, indiciado por ter detratado um subordinado do Exército. Absolvido pela Corte Militar, desembarca na capital amazonense, em 27 de março, e reassume o comando do Regimento. Prossegue na função até 19 de outubro, quando a deixa provisoriamente para retornar à Belém, desta vez em comissão do Estado. Quase no final de dezembro (28) é nomeado vice-provedor da Santa Casa de Misericórdia.

No ano seguinte (1902), é mantido no comando do Regimento. Porém, ainda sem explicação, por ato de 13 de janeiro, é igualmente nomeado Superintendente (prefeito) de Manaus. Acredito que manteve as duas gestões, decerto com um substituto interino no comando militar. Tanto assim que, em 10 de maio, foi dispensado do comando. Substituído pelo coronel Camilo de Lelis Pacheco Amora, que permanece no comando até 13 de agosto, afastado por desídia, ocasião em que retorna o coronel Adolpho Lisboa. Nesta condição, segue até janeiro de 1903, quando volta a visitar Belém e, como exigência da época, passa o comando temporariamente ao coronel Antonio Emydgio Pinheiro. Ao final de 1903 (26.11), Lisboa alcança o posto de capitão do Exército. E entre viagens à Belém, com substituições temporárias, e a administração da prefeitura municipal, Lisboa segue no comando até 25 de junho de 1904.

A cidade de Manaus estava às vésperas da posse, em 23.07, do governador Antonio Constantino Nery. Com a posse de Nery, o coronel Adolpho Lisboa é nomeado em 9 de setembro, e assume a 12, o comando do Regimento. Mais adiante, em 5 de janeiro de 1905, sucede ao dr. João Coelho na prefeitura municipal da Capital. Ao mesmo tempo, é substituído no Regimento Militar pelo coronel Emygdio Pinheiro. Mas, ainda se necessita de pesquisas para se detalhar as diferentes datas para os diversos cargos exercidos pelo coronel Adolpho Lisboa. A definitiva exoneração, do comando do RME, ocorreu em 27.12.1907, pois se aproximava o final do governo Constantino Nery. Todavia, como alcaide, que teve o governo mais duradouro na prefeitura, Lisboa efetivou inúmeras obras na Capital, tratando de seu embelezamento e de sua ampliação ordenada, obras ainda presentes na Cidade. Sua administração foi a amplificação do arrojo urbanístico empreendido principalmente por Eduardo Ribeiro (1892-96).

Não há indicação de seu destino final, onde e quando faleceu, nas ralas biografias consultadas. Em pesquisa no Arquivo do Exército (RJ), copiei documento que autoriza o capitão de infantaria Adolpho Lisboa, ao final de 1907, viajar à Europa, em tratamento de saúde. Mas esta informação registra o mestre Bittencourt (1973), que apreciou aquele tempo quase desenfreado de progresso de nossa urbs. E descreve sucintamente Adolpho Lisboa, analisando a sua personalidade, como um esquisitão. Certamente, no dealbar deste novo século, será dificílimo entender como um administrador público vitorioso não pôde participar do contentamento, do entusiasmo de seus munícipes.

(*) Roberto Mendonça é Coronel reformado da Polícia Militar do Amazonas e Sócio-Efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. 


quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Indumentária Feminina desde o Século XVI ao XIX


Inicialmente será preciso advertir que o primeiro gesto de admiração do índio por gente vestida diferentemente deles, que só usavam tangas e aracoiaba (saiote de penas) acontece com o contato entre eles e o capitão Francisco Orellana em 1541. A partir, portanto, da colonização portuguesa no século seguinte (XVI), é que se inicia uma reviravolta nos costumes, com as famílias colocadas em terras das Capitanias do Cabo do Norte e do Grão Pará. Só conhecemos os tipos de roupas femininas ou por xilogravuras imperfeitas ou pelos tipos de fazenda que a coroa portuguesa mandava distribuir aos colonos, os quais alegavam que suas mulheres e filhas não podiam ir à igreja por não terem “roupas de ver a Deus”. Que tipos de fazendas eram aquelas? Os documentos escritos nos dizem, na sua linguagem indecisa: peças ou côvados de “bertanha” (Bretanha), algodão não curado, chitas lisas, meias grosseiras, nada de sapatos nem de chinelos, somente socos. Para compensar essa míngua de ofertas, o governo autorizava a entrega de novelos de algodão cru, rocas de fiar e um ou outro tear de pedal. Os grandes teares só aparecem na Capitania de São José do Rio Negro, na vigência do governo Lobo de Almada, quando este mandou construir a Fábrica. Fechada esta, a população viu-se a braços com o problema duplo de importar as peças de Belém ou de fiar em casa o pano de algodão. Este último recurso foi o que deu certo e como se vê na foto do século XVIII, em todas as residências haviam fiandeiras, ou contratadas e/ou escravas.


A roca era um aparelho muito simples, constando de uma armação de madeira, dotada de roda grande que era movida a pedal e um rolo na parte superior para enrolar o fio de algodão. Trabalhava-se naquilo o dia inteiro ou em horas de lazer e obtinha-se o material necessário para o tear. Este sim, requeria maior desempenho e cabeça, pois a tecedeira deveria seguir certos padrões convencionais e a partir deles, elaborar seus desenhos próprios, com fios coloridos ou não. O tear não foi introduzido pelo colono, o indígena já o conhecia, pois fazia suas redes de fio de tucum, de trama bem apertada. Existem gravuras em livros de viajantes.

O governo português mais tarde já concedia equipamentos para os colonos, e mesmo chegava a dotar as filhas de família com um arsenal de roupas sofisticadas, daquele modelo que ia transitando do afogado para o amplo. Não dava presentes caros, do tipo jóias, sapatos, adereços feminis. Também as leis suntuárias proibiam que as escravas usassem ouro e brilhantes, sedas e veludos. Daí a grande sortida de colares e pulseiras de contas, aqueles “berenguendens” de que falam os cronistas e que continuam a encantar a mulher, enfeites feitos de sementes de mulungu, de lágrima de Nossa Senhora, com pendentes talhados em caroço de tucumã, e anéis do mesmo, chamados “memória”.


Os primeiros modelos de toalete feminina de que se ocupa a história, sem notícia detalhada, são oriundos do século XVI e foram as saias balão. A partir de um conjunto básico, que constituía a “braga” (calça frouxa apresilhada no tornozelo), anágua, camisa inteira, parapeitos, então sobrevinha a cobertura do colo, com uma blusa. Algumas damas de colo exuberante usavam o corselete e outras o espartilho. Esta peça era tirânica, pois tendia a acochar as banhas, diminuindo o “à vontade” dos movimentos, além de que eram feitas com talas de aço. Depois foram substituídas por barbatanas de baleia. A mulher desse período não usava sapatos de entrada baixa. Ou eram botinas de tacão baixo ou servilhas. As mestiças e escravas usavam o mesmo modelo, mas de pano diferente, algodão. No século dezoito as saias passaram a chamar-se “baroneza”, “veneziana”, ou “saias balão”, por causa do amplo diâmetro da fímbria que arrastava no chão. Quanto à blusa era de decote atrevido, mostrando o nascimento dos seios. O interessante é que para as mulheres mostrar os mocotós era mais ofensa ao pudor que mostrar os seios à Maria Antonieta. Para as mulheres de baixo nível social essa toalete chamava-se “descalça”, porque a mulher não usava calçados nem mesmo servilhas. Em compensação não deixava de trazer uma flor no cabelo, sua garridice. Madame Agassis ilustrou seu livro com o retrato de uma mestiça nesses trajes, mas não se refere ao nome “descalça”. Também nesse período a mulher da Amazônia não usava chapéu. Os cabelos eram armados ou em “torre” (enrolados para cima) ou em coque (popularmente cocó, enrolados na nuca). Atrás da cabeça elas metiam o “trepa moleque”, um pente grande, ornamentado, que ajudava a suspender a mantilha. O penteado podia variar daí para os cachos, os bandós, as tranças enroladas, os xixís. Cabelos soltos e tranças livres só as portuguesas usavam. 
O fim do século XIX trouxe Paris para a Amazônia e a indumentária mudou, com o uso e o abuso de grandes chapéus, vestidos de cauda, de uma só peça ou de duas, luvas e mitemes, calças curtas pelos joelhos, sapatos de entrada baixa e salto alto (ou botinas), sutiãs pré-fabricados, mas o uso do espartilho de barbatanas continuou até à década de vinte, mais ou menos, quando ela se libertou das calças (passando a usar calcinhas) e dos espartilhos. Os grandes “abanicos” ou leques eram fabricados no Japão e na Espanha, e certamente tiveram grande influência social nesse período. Os cosméticos é que não faziam parte do seu arsenal de boudoir. Os cheiros e os tônicos eram de origem natural: óleo de mutamba para o cabelo ficar ondulado e negro; patchuli, cumaru, para a roupa. Com a invasão da Europa, os perfumes do tipo kananga do Japão passaram a substituir o regional.
 




A Indumentária dos Homens dos Séculos XVII a XIX.


Existem documentos fotográficos e desenhos da indumentária dos homens dos séculos anteriores ao vigésimo, inclusive reproduções coloridas no Dicionário Lello Universal. Embora as reproduções desse dicionário não estejam rigorosamente exatas quanto ao tema universal, eles servem para comparar as modas européias. Mas quase toda gente sabe que até o século dezessete a indumentária dos homens era marcada pelo estado social das classes, que se caracterizavam pela plebe, burguesia (artesãos, comerciantes e clero) e nobreza, ou simplesmente povo e nobreza. Àqueles não era conferida a autorização para usar espada, a menos que fossem militares. E aos burgueses do tipo comerciantes conferia-se o direito de usar espadim ou espada de salão, uma arma imprópria para duelo. A indumentária dessa gente podia ser muito simples, constituída de calções justos presos nos joelhos e camisa fechada no pescoço e de mangas compridas, com uma gravata larga do tipo corrugado. A fazenda variava da gabardine para o algodão cru. Chapéu sem plumas ou gorro. Os nobres, ao contrário, caprichavam na toalete, quase efeminada com laçarias, pérolas, pedras preciosas, bordados a prata e a ouro, e brincos (penduricalhos) de ouro e prata. 



Alguns mais atirados imitavam os orientais e usavam argolas no septo nasal.As roupas eram bastante coloridas e até se pareciam com as extravagâncias dos mutantes modemos aquelas calças de listas verticais. O uso do colete de seda era mais funcional do que ornamental por causa do clima europeu. Por cima dele se cobriam os fidalgos e nobres com o gibão, de veludo ou de alpaca, que caía pelos joelhos e era aberto para mostrar a camisa de linho curado com botões de pérolas ou brilhantes. 


No inventário que fez dos seus bens o governador Lobo da Almada cita essas jóias, inclusive para os punhos da camisa de bofes de rendas. Houve épocas em que não se usou gravata, mas uma gola de pano de cambraia em serpentina (ondulada) e todo retrato de Shakespeare e de reis e imperadores do século XV ao XVI infalivelmente mostra essa moda. Por último o nobre não dispensava a capa. Esta era sempre de cor escura, forrada de vermelho satânico, com nastros para atar no pescoço. Embrulhava-se naquele manto para defender a roupa da poeira, fosse de dia ou à noite. No século seguinte, XVII, a moda exigia uma variação, que era para as cores mais claras, com calções golpeados, ou de gomos coloridos. É uma ressurreição da tradição “Iluminista” na Europa, e até as espadas, que ordinariamente tinham os punhos em forma romana de cruz, passaram a ser tonificadas com os copos lavrados, obras de ourivesaria que, segundo consta, foram enriquecidas pelo mago do cinzel, o italiano Benevenuto Cellini. Nessa época a espada deixa de ser adereço do cinturão para compor o complexo baudrié. E o boldriê ou talabarte, de couro chapeado de prata e ouro, passa a ser um indumento mais suntuário do que funcional, pretexto para encrustar pérolas e diamantes. O escritor francês Alexandre Dumas enriquece a prosápia do seu personagem Porthos, com aquela piada de que o talim do mosqueteiro só tinha fachada, isto é, só era suntuoso na parte da frente, atrás era couro cru, que a capa disfarçava. O chapéu de abas largas requeria uma pluma de avestruz algumas à moda Rubens. E as botas subiam até as coxas, com esporas douradas. A moda dos príncipes e fidalgos muda com a Comuna de Paris. As calças descem sobre as botinas, o gibão se transforma em paletó e a gravata num pano colorido atado ao pescoço. O antigo chapéu de plumas diminui as abas e passa a ser chamado tricórnio ou bicórnio, conforme tenha dois ou três bicos. Um retrato oficial de Napoleão Bonaparte mostra essa invasão da nova moda. A calça continua sendo chamada “de alçapão”, porque tem a braguilha em forma de triângulo, abotoada por três botões, a fim de facilitar o trabalho fisiológico. Mais tarde o chapéu passa a ser cartola ou “chapéu alto” de pêlo de castor. O colete continua porque é funcional. A camisa branca recebe punhos de renda como antigamente e os botões são mimos de pedras preciosas. Mudam os nomes também: o paletó desce até os joelhos e se chama, via de regra, jibão ou véstia. Sobre ele podia usar-se o sobretudo O colete passa a ser fiuncional, para o uso do cebolão (relógio de algibeira, maior que o comum e de espessura maior) e para a corrente do palito de dentes. 



Este último implemento não era de uso entre os homens de “alto coturno”, mas os comerciantes portugueses não relaxavam no seu uso e abuso. Os homens usavam “ceroulas”, uma calça longa que se amarrava nos tornozelos. Mais tarde é que passou a ser curta, pelos joelhos. A gravata, no início, era de couro, principalmente para os militares. Depois passou a usar-se o plastron, uma gravata já pronta que se atava ao pescoço ou a de “laço de clow”, uma tira larga de pano a que se dava uma laçada cujas pontas ficavam flutuando. Geralmente os artistas é quem mais adotavam este modelo . O sapato não era nacional. Vinha da Inglaterra ou da América do Norte e havia marcas famosas como a Walk-Over. Os dandis usavam sobre o borzeguim uma capa de gabardine cinza chamada polaina. Não havia ainda sapato de entrada baixa somente botinas de cano alto, e algumas de elástico na zona do tornozelo, e botas. Para fechar havia duas modalidades: ou torçais ou grampos Para estes era necessário o uso do “gancho”, um estilete de ponta dobrada, que apanhando o botão do sapato, trazia-o para a casa. O tratamento da cara era chamado “afeitação”, e quando o homem possuía barba completa, isto é, barba e bigodes juntos com suíças, denominava-se “barba passa piolho”. Se a barba era em ponta como a do coronel Ramalho, chamava-se ainda cavanhaque, nome do inventor. E o montinho de cabelos que o coronel Antônio Bittencourt portava sob o lábio inferior, mosca. Quando em ponta e curta era ‘pêra”. O bigode era trazido à moda d'Artagnam, espichado e fino e à moda Kaiser, dobradas as pontas para cima; à “marechal Hindembourg”, grosso e de guias retorcidas. Havia um aparelho de pano que se colocava em cima dos bigodes, para mantê-los firmes depois de encerados, era o “porta bigodes”. Por fim a bengala, que se usou muito nos séculos anteriores, porém mais altas. Havia as de “espeque”, arma perigosa na mão de adversário instintivamente mau. Se o inimigo prendesse a parte inferior, o portador puxava e tinha nas mãos meio metro de ferro afiado. A bengala de honra era a de castão encrustado a ouro com monograma cinzelado. A madeira variava do pau Brasil muito dura e resistente para mogno, freijó, cedro, muirapinima, piranheira, acapu. Foi a arma utilizada nas campanhas eleitorais do passado, nas vinganças solertes, nas tocaias. 

Foi a arma com que o dr. Artur César Ferreira Reis castigou o jornalista e professor Carlos Mesquita. Foi a arma com que o coronel Bittencourt mandou sovar o jornalista João Barreto Meneses e o jornalista português Fran Paxeco. 

Fotos do anúncio da Maison Francesco Luzzato. Álbum Descritivo Del Pará, 1898.