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domingo, 9 de novembro de 2014

CACHOEIRINHA | História




O bairro da Cachoeirinha foi projetado em 1892, por iniciativa do governador Eduardo Ribeiro, visando aumentar a frota de bondes e reestruturar os serviços de saneamento, abrindo assim, novas áreas para expandir o perímetro urbano da cidade. 

Nesta época, o bairro era ligado ao centro de Manaus por uma ponte de madeira, que os moradores denominavam de Itacoatiara. Hoje é a famosa Ponte de Ferro Benjamin Constant, construída pelos ingleses no século passado, uma das referências históricas da cidade de Manaus.

O encarregado de idealizar o projeto  do bairro Cachoeirinha foi o engenheiro Antônio Joaquim de Oliveira Campos, que elaborou um plano piloto em uma área de 1.574.448 metros quadrados, onde foi edificado o bairro , antes conhecida como Cachoeirinha de Manaus. 


Origem do nome 

A origem do nome se deve a um caudaloso igarapé que, na vazante, formava uma forte corredeira e servia para o lazer dos poucos habitantes da área e para as lavadeiras realizarem seus ofícios. As águas do igarapé circundavam toda a extensão do novo bairro. 

Linha do Bonde

Para viabilizar a chegada de linha de bonde até o bairro, o governador Eduardo Ribeiro decidiu construir a ponte metálica situada na entrada sul da Cachoeirinha, construída no período de 1892 a 1895, com todas as peças importadas da Inglaterra e sob a supervisão do engenheiro Frank Hirst Hebblethwait. 

Neste período, Manaus crescia com uma arquitetura totalmente européia, a exemplo do Mercado Adolfo Lisboa, das casas construídas com fachadas e calçamentos e das primeiras praças, totalmente em estilo inglês. 



A ponte da Cachoeirinha ainda recebeu outros nomes: Terceira Ponte, Ponte Metálica, Ponte da Cachoeirinha e Benjamin Constant, seu nome oficial. 

É mais um monumento histórico do governo de Eduardo Ribeiro e, das pontes metálicas existentes em Manaus, a mais imponente. 

Bosques formavam paisagem 

Em 1901, de acordo com registro no Álbum do Amazonas, já no governo de Silvério Nery, a paisagem dominante no bairro era formada por bosques aprazíveis, com enormes árvores e várias clareiras. 

A expansão do perímetro urbano da cidade transformou o bairro em passagem e ponto obrigatório dos serviços de bonde, fazendo com que o governo estadual arrendasse, em forma de contrato, estes serviços para o engenheiro Antônio de Lavandeyra, que devia ser responsável pela exploração durante o prazo de 70 anos. 

No dia 9 de julho de 1918, o contrato sofreu alterações, sendo transferido os serviços de eletricidade que movimentava os bondes na capital para a Usina Central de Manaus, conhecida por The Manaos Tramways and Light Co. Ltda, com firma no bairro de Aparecida.

Urbanização

Dentro do processo de urbanização da Cachoeirinha, é construída a praça Benjamin Constant, onde atualmente funciona a empresa Manaus Energia, e em frente um grande barracão de madeira, para ser a primeira feira do bairro, que ficou conhecida como Mercadinho da Cachoeirinha, recebendo uma estrutura melhor na administração de Ephigênio Ferreira Salles. 

No mesmo local funcionou também o grupo escolar Guerreiro Antony, em homenagem ao coronel Antonio Guerreiro Antony. Em 1927 foi instalado no local a Escola de Aprendizes Artífices do Amazonas com cursos de desenho, oficinas de alfaiataria, marcenaria, tipografia entre outros. 

Em 1942 a Escola de Artífices se muda para novas instalações e passa a ser chamada de Liceu Industrial de Manaus, antiga Escola Técnica Federal do Amazonas e atualmente Cefet (Centro Federal de Ensino Tecnológico do Amazonas). 

A Manaos Tramways, para melhor servir a população neste serviço de bondes, construiu uma oficina na Cachoeirinha, num prédio situado na praça Benjamin Constant, servindo de garagem para os bondes, laboratório, almoxarifado, além de manutenção dos carros da companhia.

O aumento da população na época forçou a ampliação do sistema elétrico da cidade e a criação de uma distribuidora de energia que servisse de apoio à usina central, fato concretizado em 1939, com a inauguração de uma sub-usina, na mesma praça.


Fim dos Bondes 

O serviço dos bondes funcionou a contento até a década de 1950, quando a falta de energia elétrica comprometeu a qualidade e regularidade das linhas. 

O processo de desativação se tornou inevitável e a Manaos Tramways foi extinta, uma vez que, a cidade sofria constantes colapsos energéticos. Os bondes, então, pararam de circular. 

No ano de 1955, ocorreu uma tentativa frustrada de fazer os veículos circularem, mas a falta constante de energia tornou inevitável o desaparecimento dos bondes, cujas peças foram vendidas como ferro velho. 

No início da década de 1960, Manaus iniciou novo processo de desenvolvimento, com as ruas recebendo camada de asfalto que cobriram grande parte dos trilhos, principalmente da circular Cachoeirinha. 


Mercado Walter Rayol

Em 1965, o barracão de madeira do mercado estava deteriorado e o foi construído outro prédio. Nasceu um mercado maior chamado Walter Rayol, que atende hoje cerca de 214 feirantes nos mais variados tipos de comércio.

Em 1967, na gestão do então governador Danilo de Mattos Areosa iniciou-se o processo de recuperação da ponte Benjamin Constant, deteriorada devido ao desgaste natural. A recuperação ficou sob a responsabilidade da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), com sede no Rio de Janeiro, em parceria com o DER-AM (Departamento de Estradas e Rodagem do Amazonas). 

O contrato foi publicado no Diário Oficial em 16 de setembro de 1967, onde a CSN ficaria com o encargo de desmontar, recuperar, substituir e montar as peças da estrutura. Na década de 1970, o bairro sofreu uma expansão demográfica, ocasionada pela chegada em Manaus de inúmeras famílias vindas do interior e de outros estados, em busca de melhores oportunidades oferecidas pelo incremento da economia local, devido a implantação da Zona Franca de Manaus. 

Esses novos moradores foram ocupar as margens dos igarapés, chegando muitas vezes a construir suas casas no próprio leito dos rios. Em 1986 foi inaugurado o Terminal de Integração da Manicoré, atraindo todas as linhas de transporte coletiva que circulavam nas proximidades. O bairro da Cachoeirinha chegou a ter intensa vida noturna entre o final da década de 1980 a 1990, com diversas casas de shows que atraiam grande público de todas as partes de Manaus.

Forte área comercial 

O bairro da Cachoeirinha possui uma área comercial que incluem setores da construção civil, elétrico, auto-peças, lojas de eletrodomésticos, supermercados, além das instituições de saúde como a Fundação Alfredo da Mata, Pronto Socorro de Atendimento, Pronto Socorro da Criança, Instituto Adriano Jorge, Hospital Militar, Universidade do Estado do Amazonas (Faculdade de Medicina). Na área cultural, Cachoeirinha abriga a Casa do Folclore, a quadra da escola de samba Andanças de Ciganos e várias de casas de shows e espetáculos. Em toda a extensão do bairro existe também nove postos de gasolina. No bairro estão grandes centros de saúde, como o Hospital Geral de Manaus, criado em 14 de fevereiro de 1953, pelo Decreto nº 32.271, com a denominação de Hospital Militar de Manaus, vinculado a 8ª Região Militar, hoje CMA (Comando Militar da Amazônia). 

O Hospital Adriano Jorge, inaugurado como sanatório durante a campanha nacional contra a tuberculose, do Ministério da Saúde, em 30 de junho de 1953. 

Em 1979 passa a ser denominado de Hospital Geral Adriano Jorge e atualmente foi todo reformado e atende a população em geral.


A Fundação Alfredo da Mata, órgão da Secretaria Estadual da Saúde, foi criada em 1955, com o nome de Dispensário Alfredo da Mata, para atender pacientes com hanseníase. 

Logo no início, os pacientes de extrema gravidade e mutilados eram encaminhados a núcleos populacionais de doentes em Paricatuba, vila localizada na região do Rio Negro e Colônia Antonio Aleixo. No ano de 1982, de acordo com o Decreto-Lei nº 6.608, de 24 de novembro de 1982, o Dispensário Alfredo da Mata recebeu o nome de Centro de Dermatologia Tropical e Venerealogia Alfredo da Mata, em razão da ampliação de suas atribuições.

Localização 

A Cachoeirinha está localizada na Zona Sul da Cidade, fazendo fronteira com os bairros da Praça 14, São Francisco, Raiz, Betânia, Igarapé do 40 e do Mestre Chico e o Centro. 

Peculiaridade

Cachoeirinha guarda muitas histórias desde o primeiro momento de sua existência. Uma delas é a origem da capela do Pobre Diabo, situada na rua Borba (antiga praça Floriano Peixoto). Conta-se que em 1882, um cidadão português chamado Antonio José da Costa, dono de uma quitanda na rua da Instalação, no Centro da cidade, mandou fazer uma tabuleta que representava um homem coberto de trapos com os dizeres: "Ao pobre diabo". Ele logo foi apelidado pela população de "pobre diabo". 

SAIBA MAIS SOBRE A IGREJA DO POBRE DIABO

Em 1897, Antonio se casa com Cordolina Rosa de Viterbo e passam a residir próximo à praça Floriano Peixoto. Tempo depois, Antonio adoece deixando aflita sua mulher. 

Devota de Santo Antonio, ela fez uma promessa pedindo a cura do marido e, se atendida, construiria uma capela em louvor ao santo. Restabelecida a saúde do marido, Cordolina pagou a promessa construindo a capela que até hoje é conhecida pela população como ?Capela do Pobre Diabo?, que comporta em média 20 pessoas. Não se sabe ao certo a data de sua inauguração. 

A mais aproximada é o dia 28 de novembro de 1897. Na administração de Arthur Reis, a Assembléia Legislativa aprovou a Lei Estadual de nº 8, de 28 de junho de 1965, considerando a igreja de Santo Antonio como parte do monumento histórico da cidade e do bairro da Cachoeirinha. Ela se mantém constantemente fechada, sendo aberta eventualmente para turistas e nas comemorações do dia de Santo Antonio. 

Santa padroeira 


Em 1381, na região da Úmbria, num lugarejo chamado, naquela época, Rocca Porena, nasceu a pequena Margherita, recebendo a abreviação apenas de Rita. Educada na doutrina cristã, passou sua infância e sua juventude auxiliando os pais na lavoura. Certa ocasião Rita foi encontrada envolta de abelhas brancas que lhe pousavam na face, sem feri-la. Casou com Paulo Fernando, tiveram dois filhos.

O marido, homem muito rígido, maltratava sempre Rita. Devotada de paciência conseguiu converter o marido ao cristianismo. Ele morreu assassinado, vítima de lutas políticas na época. Percebendo que os filhos queriam vingar a morte, Rita preferiu vê-los mortos, pedindo a Deus que os levassem. 

Ambos morreram vítimas de uma peste que dizimou toda a Europa. Viúva e sem filhos, Rita se dedicou ao socorro dos pobres e enfermos, ajudando-os com alimentos, visitas, conforto e trabalho. 

Nesta época, procurou o convento das Irmãs Agostinianas de Santa Maria Madalena, em Cássia, e se tornou religiosa. 

No dia 22 de maio de 1457, Rita de Cássia morreu. Tantos foram os milagres e graças recebidas por milhares de fiéis espalhados pelo mundo que é conhecida como Santa dos Impossíveis. Foi canonizada pelo Papa Leão XIII no dia de Pentecostes, em 24 de maio de 1900. 

Festas populares 

Na Cachoeirinha surgiu o bumbá Corre Campo, fundado em 1º de maio de 1942, na casa 1140, da rua Ajuricaba, por Astrogildo Santos, o Tó, Wandiguamiro Santos, o Miro, Dionísio Gomes, o Tucuxi, Mauro Souza Cruz, o Pelica, e Antônio Altino Silva, o Ceará.

Os ensaios aconteciam no próprio curral e nas casas onde era solicitado. A agremiação escola de samba Andanças de Ciganos é outro atrativo que marca a história do bairro.

Surgiu em 1974, quando um grupo de moradores, na rua Parintins organizou um bloco denominado ?Bloco do Macacão?, nome dado em virtude da popularidade do vestuário e da chegada, alguns anos antes, da Zona Franca de Manaus. 

Em 1975, foi criado o bloco Andanças de Cigano, com o objetivo de substituir o anterior. O nome do novo bloco se deu pelas suas indumentárias terem as características das roupas de ciganos, com turbantes na cabeça, calças justas e saias rodadas. 

A escola já foi pentacampeã do Carnaval amazonense. Em 1984 foi elevada a categoria de Grêmio Recreativo Escola de Samba Andanças de Cigano. 

SAIBA MAIS SOBRE ESTAS FESTAS POPULARES

Outra manifestação cultural do bairro são os grupos de ciranda, com a participação de jovens da comunidade e da vizinhança. 

Fonte: PORTAL AMAZÔNIA

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Área central da cachoeirinha

Foto: Palácio Rodoviário e Cine Ypiranga, Manaus-AM, Cartão Postal - A Favorita
CACHOEIRINHA

O bairro da Cachoeirinha, nos anos 50/60, era praticamente o limite
da cidade de Manaus ao leste, local de inúmeras chácaras que cederam
lugar a um bairro essencialmente residencial. Um cinema, uma
repartição pública e uma praça, construídos em frente de um Sanatório,
constituiam o principal patrimônio do lugar. O cinema fechou e a praça
desapareceu para dar lugar a uma edificação da Universidade Estadual
do Amazonas. A Cachoerinha não está só; muito outros bairros não têm
uma pracinha sequer.

Por Nália Almeida

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Capela do Pobre Diabo

Capela do Pobre Diabo


O bairro da Cachoeirinha,em Manaus, guarda muitas histórias desde sua colonização. Uma delas é a origem da capela do Pobre Diabo situada na rua Borba (antiga praça Floriano Peixoto). Conta-se que em 1882, um cidadão português chamado Antonio José da Costa, dono de uma quitanda na rua da Instalação no Centro da cidade, mandou fazer uma tabuleta que representava um homem coberto de trapos e abaixo os dizeres: "Ao pobre diabo". Como ele era ávido pelo dinheiro e sempre dizia que não vendia fiado por ser um pobre comerciante, a população decidiu lhe apelidar de "pobre diabo".

Em 1897, Antonio casa com Cordolina Rosa de Viterbo e passaram a residir próximo a praça Floriano Peixoto e onde montaram uma casa de diversões. Algum tempo, Antonio adoeceu deixando sua mulher aflita. Devota de Santo Antonio fez uma promessa ao santo pedindo a cura do marido, caso ficasse bom, mandaria construir uma capela em louvor do santo. Estabelecido a saúde do marido, Cordolina pagou a promessa mandando construir a capela que até hoje é conhecida pela população como "Capela do Pobre Diabo". A igreja comporta em média 20 pessoas. Embora sendo do século passado, não se sabe ao certo a data de sua inauguração.


A data mais aproximada é de 28 de novembro de 1897. Na administração de Arthur Reis, a Assembléia Legislativa aprovou a Lei Estadual de nº 8, de 28 de junho de 1965, autorizando o governo a considerar a igreja de Santo Antonio como parte do monumento histórico da cidade e do bairro da Cachoeirinha. Ela se mantém constantemente fechada, sendo aberta eventualmente para turistas e nas comemorações do dia de Santo Antonio.

Fonte: Portal Amazônia


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Cachoeirinha na folia: do Bloco do Macacão ao Andanças de Ciganos

Cachoeirinha na folia: do Bloco do Macacão ao Andanças de Ciganos


Influenciados pelas novelas da Globo daquela época, e com um pouco de irreverência, um grupo de amigos criaram os mais divertidos blocos de carnaval de Manaus daquela época.


ENTENDA:

Escrita por Walther Negrão, a novela “O Primeiro Amor”, exibida às 19h pela Globo, em 1972, foi uma novela romântica e alegre que deixou saudades.

Sua trilha sonora internacional virou item obrigatório nas “brincadeiras” no bairro da Cachoeirinha.

Walther Negrão conta que antes de começar a escrever a novela, reuniu-se com Homero Icaza Sanchez, então responsável pelo Departamento de Análise e Pesquisa da TV Globo.

O objetivo era analisar, com base em uma pesquisa junto ao público, os elementos que haviam funcionado na novela anterior, “Minha Doce Namorada” (1971), um sucesso estrondoso escrito por Vicente Sesso.

A partir das conclusões que resultaram dessa reunião, o autor criou personagens que pudessem gerar respostas equivalentes junto ao público telespectador.


Shazan e Xerife, uma dupla de “superanti-heróis”, como eram descritos nas chamadas da novela, davam o tom cômico e juvenil do parque de diversões de “O Primeiro Amor”.

Já a gangue de motociclistas comandada por Rafa foi criada, ainda segundo Walther Negrão, para atrair o público masculino entre 15 e 25 anos, o qual Homero Icaza Sanchez apontava como uma parcela do público a ser conquistada.

De acordo com Walther Negrão, as ameaçadoras motocicletas que os rebeldes da gangue de Rafa pilotavam serviam como contraponto às bicicletas que apareciam na abertura da novela e na oficina de Shazan e Xerife.

Estas representavam uma tentativa de conferir à trama um tom nostálgico e lúdico.

As bicicletas voltaram a fazer sucesso e se tornaram mania entre o público, a ponto de uma fábrica lançar um modelo novo, que foi popularizado pela novela, dando início ao merchandising na teledramaturgia da TV Globo.

A primeira dupla escolhida por Walther Negrão para viver Shazan e Xerife havia sido Paulo José e Armando Bógus.

O autor conta que mudou de idéia depois que o diretor Daniel Filho, supervisor de “O Primeiro Amor”, argumentou que os dois atores tinham características muito parecidas e sugeriu o nome de Flávio Migliaccio, com quem Paulo José já havia trabalhado no teatro e no cinema.

Além de excelente química diante das câmeras, Paulo José e Flávio Migliaccio reuniam outras qualidades que se complementavam e que ajudaram a definir o estilo de interpretação e a apresentação visual de Shazan e Xerife.

Ambos exerciam outras atividades no teatro (Paulo dirigia e Flávio escrevia), o que facilitava o trabalho de direção.

Eram também ótimos desenhistas (Flávio Migliaccio chegou a ser premiado como cartunista) e criaram seus próprios figurinos.

O macacão tipo jardineira, usado por Shazan, tornou-se moda nas ruas.

O nome Shazan é uma referência ao Capitão Marvel, super-herói das histórias em quadrinhos.

Capitão Marvel é o alter ego de Billy Batson, um jovem que trabalha como repórter de rádio e foi escolhido para ser um campeão da bondade pelo mago Shazam.

Sempre que Billy fala o nome do mago, ele conjura um relâmpago mágico a fim de mudar de Billy Batson para Capitão Marvel e vice-versa.

Quando está na forma do herói ele fica adulto e com as habilidades de seis figuras legendárias, ganhando a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Antharas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Na novela, entretanto, a grafia do nome era diferente: “Shazan”. Já o nome “Xerife” foi tirado do apelido de infância de um primo de Walther Negrão.

O primeiro capítulo foi ao ar com muitas bicicletas e ruidosas motos circulando na pracinha principal da cidade fictícia de Nova Esperança, enquanto o professor Luciano (Sérgio Cardoso, morto em agosto e substituído por Leonardo Villar) chegava para morar na cidade e assumir a direção de um colégio.

Maria do Carmo (Tônia Carrero), sua ex-noiva, professora de inglês, tentava atrapalhar seus planos, pois queria ser a diretora.

Luciano era o pai viúvo de quatro filhos – Júnior (Herivelto Martins Jr.), a rebelde Babi (Suzana Gonçalves), Zizi (Rosana Garcia) e Rui (Marco Nanini) – que precisava de uma governanta.

Paula (Rosamaria Murtinho) ganhou o emprego e conquistou o coração do patrão e a torcida do público.

Quase no meio da novela chegou a psicóloga Giovana (Aracy Balabanian), que, de cabelos curtos e óculos redondos, ajudava o professor no trato com os alunos, principalmente com a turma do Rafa (Marcos Paulo Sesso).

A novela estourou. Ao lado deles tinha a família do simpático casal “seu” Quinzinho (Sadi Cabral) e dona Júlia (Elza Gomes), pais de Hélio (Roberto Pirilo) e Shazan (Paulo José).

Com eles morava Xerife (Flávio Migliaccio), que acabou formando dupla com Shazan e virando o seriado “Shazan, Xerife & Cia”.

Rapidamente, a roupa dos dois (macacões de agricultores norte-americanos da marca Lee ou Levi’s) se transformou em sonho de consumo de quem podia importar as tralhas.

Aqui na Zona Franca – como nos EUA! –, virou coisa de pobre.

Mário Adolfo fazendo pose de galã na Praça do Palácio Rodoviário, com sua inseparável capanga

Basta dizer que no dia de Natal do ano anterior, em 1971, no cruzamento das ruas Borba e Parintins, na Cachoeirinha, se reuniram pelo menos uns 70 vagabundos ostentando os tais macacões, alguns ainda com as etiquetas de papelão nos bolsos traseiros.

As minas mais avançadas meteram a tesoura nos panos e transformaram aquilo em “macaquinhos” curtíssimos, inventando o “short asa-delta”, que deixava a papada calipígia do lado de fora.

Outras, mais inventivas, compraram meio metro de “jeans índigo blue” na loja Cearense e fizeram uma adaptação em que o macaquinho se transformava em saiote. Nem os gringos tinham tido tal ideia.

Na época estudante do Colégio Estadual, editor e ilustrador do jornalzinho A Patota(eu era o redator), Mário Adolfo logo percebeu o potencial da palhaçada:

– Isso aqui não é moda, isso aqui é um bloco carnavalesco, porra! – reagiu, irritado.
Dito e feito.


Em fevereiro de 1972, a moçada foi recepcionar a Kamélia e o rei Momo, que chegavam de barco e recebiam a chave da cidade do prefeito no cais do porto, trajando os macacões e montados em bicicletas alugadas na Vila Mamão.

Mário Adolfo e Sidney Ribeiro (aka “Sidão”) haviam feito uma marchinha bem animada: “Lá vem, lá vem, lá vem, o Bloco do Macacão/ Se não sair da frente você vai parar no chão/ É macacão/ É macaquinho/ Se não sair da frente/ Vai parar lá no cantinho/ É macacão/ É macaquinho/ Se não sair da frente/ Vai parar lá no cantinho/ Você que está de fora vá buscar seu macacão/ E sinta a alegria que vai no meu coração!/ É macacão/ É macaquinho/ Se não sair da frente/ Vai parar lá no cantinho/ É macacão/ É macaquinho/ Se não sair da frente/ Vai parar lá no cantinho”.

Mota e Luiz Lobão imitando a turma do Rafa

A TV Amazonas, que cobria o evento pela primeira vez, nunca tinha visto aquilo: uns cem malucos montados em bikes, rodopiando no meio da Eduardo Ribeiro, trombando uns com os outros, ameaçando atropelar a plateia, e ajudando o carnaval de rua a pegar fogo.

O jornalista Philippe Daou ficou tão entusiasmado com a “asa-delta” das meninas que deu uma taça de 1.º lugar (não havia concurso de blocos na época, só de escolas de samba, com a Unidos da Selva ganhando todas) para o Bloco do Macacão e mais uma merreca. Não pagava o aluguel dos “camelos”.

Na volta para o bairro, nova confusão. O hoje empresário Fábio Costa sofreu uma cãibra da moléstia quando a turma passava em frente ao Bar do Armando, na Dez de Julho, desabou no meio da rua e foi um custo fazer o rapaz se levantar.

Ninguém havia se lembrado de levar benguê ou iodex para aliviar o esforço hercúleo dos músculos das pernas em folgados “atletas de fim de semana”.

O cara urrando de dor, apertando a batata da perna e estrebuchando, e a turma ali parada, apenas olhando e esperando pela providência divina, sem mover uma palha.

Como o lema da turma era “um por todos, todos por um”, a gente só conseguiu chegar na Cachoeirinha por volta da meia-noite, depois que o Ricardão concordou em levar Fábio na garupa, e Sidão e Antídio Weil conseguiram entrar num acordo para rebocar a bicicleta entre os dois cada um segurando em um lado do guidão.


Nessa altura do campeonato, o sujeito que havia alugado as bicicletas já havia dado queixa na polícia, suspeitando de um roubo desmoralizante, e os meganhas estavam caçando a moçada. Foi um novo pára pra acertar.

Em dezembro de 1975, o mesmo grupo de moças e rapazes da Cachoeirinha que havia criado o desencanado Bloco do Macacão voltou a se reunir no Top Bar, do “seo” Aristides, para colocar um novo bloco carnavalesco na rua, aproveitando que os desfiles passariam a ser oficiais, com premiação concedida pela prefeitura.

Participaram do primeiro desfile do novo bloco, entre outros, Simone, Silane e Simão Pessoa, Marília, Mary Jane e Mário Adolfo Aryce de Castro, Sôngila e Sidney Ribeiro, Edna e Ruizinho Assunção, Sara, Ruth, Sadok e Sici Pirangy, Arlindo, Sueli e Sérgio Mubarac, Antídio Weil, Epitacinho Almeida, Kleber, Kepelé e Wilson Fernandes, Manuel Jorge, Carlos Barriga, Olíbio Trindade, Luiz Lobão, Cassianinho Anunciação, Nilsinho e Mazinho Santos, Ricardão, Carlito Bezerra, Ailton Santa Fé, Erivam Cabocão, Fábio, Fernando e Chico Costa, Roberto e Solange Amazonas, Airton Caju, Gilmar, Paulo César Dó e Gilson Cabocão, Nilson Torres, Chico Porrada, Zeca Boy, Mestre Louro, Nazaré, Nize, Gracinha, Silvana, Hedy Lamar, Maria Mubarac, Rosa Almeida, Luluca, Didão, Zé Alfredo, Lucinha e Conceição Silva, Frank Cavalcante, Nelito Bandeira, Nei Parada Dura, Helvécio, Lourival, Lúcio Preto, Petroba, Afonso Libório, Petrônio Aguiar, Petrônio Baixo, Edmilson Ligeirinho, Wolney, Maria da Glória ( aka “Gói”), Mocinha, Bia e Zenaide.

O primeiro nome pensado foi “Bloco dos Homens da Caverna”, sugestão de Sergio Mubarac e Mário Adolfo, inspirado nas aventuras dos Flintstones e do Brucutu.

Simone Pessoa lembrou que era preciso criar um bloco em que as alegorias fossem as mais coloridas possíveis e sugeriu o nome “Bloco dos Ciganos”, porque semana antes havia visto um acampamento de ciganos no cruzamento das ruas J. Carlos Antony e Maués. A sugestão foi aceita.

Na hora de inscrever o bloco oficialmente no desfile da TV Amazonas, Mário Adolfo acrescentou o “Andanças”, inspirado em uma música gravada pela Beth Carvalho.


Ruizinho, Sici Pirangy, Jairo, Arizinho e Afonso Libório na sede informal dos Ciganos, o badalado Barraka's Drinks

Efetuada a inscrição oficial, Mário Adolfo tratou logo de escrever uma marcha-enredo, que foi aprovado por todos.

A letra era simples e pretensiosa, mas tinha uma melodia ganchuda, que grudava na memória feito chiclete:

“Vejam só que belo carnaval/ Com baralho e bola de cristal/ E não vai ser igual a qualquer ano/ Pois este ano o carnaval é dos Ciganos/ Vocês precisam saber/ Como é que vive um cigano/ Gostamos de astrologia/ Mas nós somos amarrados na folia/ Não queremos ler a sua mão/ Nós só queremos alegrar seu coração/ Já não existe romance astral/ Nós só queremos amor no carnaval/ Eu vejo um futuro tão banal/ Quarta-feira acaba o carnaval/ A nossa alegria é um engano/ Não sou Mandrake, sou apenas um cigano”.

A maior dificuldade do bloco recém-criado foi conseguir uma bateria.

Diretor do colégio Ruy Araújo, o professor Djalma entrou em campo e conseguiu arregimentar os batuqueiros do bumbá Tira-Prosa, de Santa Luzia, comandados pelo famoso Mestre Zé, para participar do desfile.

O bloco desfilou pela primeira vez, no domingo gordo de 1976, com mais de 150 brincantes.

O carro abre-alas, que levava a rainha Silane Pessoa, era um jeep bugre, do Nilton Torres, imitando uma carroça sendo puxada por dois cavalos, com alegorias imitando cartas de baralho.

A “bateria cigana” era de uma pobreza franciscana: meia dúzia de surdos e dez ou doze tamborins, todos feitos de couro de gato.

A cada quinze minutos era necessário dar uma parada para afinar os instrumentos, esquentando o couro de gato em fogueiras de velhos jornais.


Naquela época, os blocos desfilavam dentro de um quadrilátero de corda semelhante ao utilizado ainda hoje no carnaval baiano, que era puxado pelos seguranças.

O cordão era necessário para evitar que o folião pipoca, aquele que pulava fora da frigideira, se misturasse com os brincantes do bloco.

Na hora do desfile, o bloco estava concentrado em frente do colégio Benjamin Constant, ensaiando pela enésima vez a marchinha composta por Mário Adolfo, Armandinho e Felisberto, quando Rui Anunciação, presidente do bloco, parou o ensaio para fazer suas recomendações finais:

– Olha, pessoal, o único bloco em que todos os brincantes estão fantasiados de acordo com o tema é o nosso. Isso quer dizer que os nossos seguranças vão ter um papel fundamental no desfile. Eles não podem deixar ninguém com outro tipo de fantasia invadir o cordão que separa os ciganos da plateia. Nós vamos arrebentar!

O ensaio recomeçou mais animado do que nunca e o bloco começou a se dirigir para a praça do Congresso, onde começava oficialmente o desfile.


De repente, um sujeito fantasiado de galinha invade o cordão e começa a correr por entre as alas, soprando freneticamente um apito.

Os seguranças (os irmãos Zezinho, Vico, Popó, Paulo César e Pepéu, todos halterofilistas) caíram em cima da desencanada “galinha” como se fossem jogadores de defesa de futebol americano encaixotando o quarterback adversário.

Depois de dez minutos de sufoco, a “galinha” conseguiu submergir daquele mar de corpos musculosos, já sem a máscara, com hematomas em um dos olhos, o supercílio partido e xingando todo mundo.

Era o Mestre Zé, comandante da batucada. Puto da vida, ele não quis conversa:

– Vumbora embora, meu povo, que aqui só tem fio da égua. Não vamos mais tocar nessa fulerage nem com nojo...

Os ritmistas obedeceram.

Nova confusão, dessa vez de Ruizinho, Ceará, Antídio Weil, Sadok e outros diretores para convencer Mestre “Zé Galinha” de que tudo não passara de um lamentável equívoco.

Foi um sufoco, mas o mestre de bateria reconsiderou a decisão.

Naquele primeiro ano, o bloco Andanças de Ciganos desceu a Eduardo Ribeiro com uma “galinha” na frente da bateria, num prenúncio do que depois viraria marca registrada das escolas de samba do Rio de Janeiro.

No segundo desfile, na terça-feira gorda (havia tão poucas agremiações carnavalescas que os blocos desfilavam duas vezes), 200 ciganos incendiaram a Eduardo Ribeiro.

O bloco sagrou-se campeão, derrotando, entre outros, “Unidos da Comendador”, “Tufão na Folia”, “Os Cartolas do Negão”, “Unidos da Cophasa”, “Beduínos no Deserto”, “Diferentes na Folia”, “Kung Fu”, “Bombas do Brandão”, “Embalo’s”, “Os Corsários”, “Riquezas do Amazonas”, “Família Lisbonense”, “Bloco do Carequinha”, “Foliões da Alegria” e “Martins e seus Batutas”.

Mesmo com o surgimento de novos blocos de embalo – “Cassino Tex”, “Fantasma do Arco-Íris”, “Discolândia na Folia”, “Morro Falando Alto”, “Cabana do Preto Velho”, “Estrela da Compensa”, “Can-can do Beasa”, “Árabes a 40 Graus”, “Bloco dos Piratas”, “Cordão das Lavadeiras”, “Lira de Prata”, “Jovens Livres na Folia”, “Unidos da Raiz”, “Mocidade Dependente do Beco Ipixuna”, “Sem Compromisso” e “Balaku-Blaku”, entre outros –, o Andanças de Ciganos continuou sagrando-se campeão, ano após ano, até 1980.

Foi o único bloco de embalo, no carnaval amazonense, a conquistar cinco títulos consecutivos. Nessa altura do campeonato, ele já desfilava com quase 500 brincantes.



A história completa da saga dos ciganos está documentada no livro “Meu Bloco na Rua”, de Mário Adolfo, à venda nas boas livrarias do ramo. Corram atrás.