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terça-feira, 14 de outubro de 2014

TEATRO AMAZONAS | CURIOSIDADES E CAUSOS

Teatro Amazonas, um teatro brasileiro com sangue europeu.
Por Jane Uchôa


- Eu quero voltar para a Europa, aqui não tem nada para fazer neste fim de mundo!
- Calma mulher, aqui tá bombando dinheiro e você quer voltar para aquela pobreza da Europa!
- E dinheiro para quê? Pra gastar onde?
- Ah! Manda buscar umas roupas pra você, sapatos, joias, o que você quiser eu compro.
- É? E para usar onde todas estas coisas?
- Então me fale o que você quer, fale que eu compro.
- Eu quero um teatro! Um teatro lindo! Cheio de ouro, candelabros, pinturas, obras de arte pelo teto e cor de rosa para combinar com meu vestido!
- Hum... um teatro? E como vou fazer um teatro mulher?
- Ah não sei! Você não é Barão? Não é o bam bam bam da cidade? Não está ganhando rios de dinheiro com a borracha? Então consegue fazer um teatro para eu desfilar meus vestidos e chapéus com minhas amigas no final de semana, ah! e coloca o nome de Teatro Amazonas para homenagear o lugar que te fez ficar rico.

Esta é uma história fictícia, mas não me admiraria se tivesse de fato acontecido. Barões da Borracha ganhavam horrores de dinheiro enquanto suas damas desfilavam pela cidade os modelitos europeus. O Teatro Amazonas foi construído com tantos detalhes que parecia ser um presente para agradar uma alma feminina revoltada, nada melhor que presente para acalmar uma mulher e de preferência, um presente caro e bonito.

Imagine uma época em que os homens iam ao baile no teatro para ver os tornozelos das moças.



Salão Nobre

Estamos em 1898, a cidade é Manaus, e o baile acontecia no Teatro Amazonas, o teatro que está entre um dos mais bonitos do mundo. Este baile era realizado no Salão Nobre, um salão com capacidade para 200 pessoas e com  espelhos colocados estrategicamente. Quando os casais dançavam as moças levantavam um pouco a saia para que o cavalheiro não pisasse na barra do vestido e, pelos espelhos, quem ficava sentado via os tornozelos das garotas do baile. Hilário isso se compararmos com o que acontece hoje num baile funk.



Projeto da Fachada do Teatro Amazonas

Do seu desenho no papel (1881), o projeto pertenceu a Antonio José Fernandes Júnior e, até sua inauguração, em 31/12/1896, vários conflitos aconteceram para que se  pudesse construir  uma obra digna de seus moradores que se tornavam, cada vez mais,  a classe alta da cidade, localizado no centro da cidade o teatro assim nasceu. O Governador era Eduardo Ribeiro. Manaus, nessa época, era ocupada por franceses, ingleses, holandeses e portugueses que tanto falavam suas línguas como comercializavam ao lado de sua moeda, a libra esterlina, moeda da Inglaterra.

Como diz o ditado popular: de “Pobre, feia e morando longe”, Manaus tornou-se  “Rica e bela, mas continuava morando longe”,  pois dentro de seu país era desconhecida, mas na Europa era muito visada pela sua riqueza, mais precisamente pelo seu “ouro negro” o látex extraído da seringueira, planta nativa que estava sendo amplamente comercializada e extraída por mão de obra barata vinda do nordeste. O ouro negro fez nascer uma era chamada Belle Epoque, retratada nas ruas por seus prédios suntuosos do neoclassicismo e comandada por uma nova classe que era diferente dos Barões do Café predominantes no país; aqui nós tínhamos os Barões da Borracha, senhores europeus que, se instalando cada vez mais, viam a necessidade de fazer crescer a cidade onde moravam e lucravam . Com toda essa riqueza disponível, Manaus foi a primeira cidade brasileira a ser urbanizada com sistema de água e esgoto, vias públicas e praças e a segunda a ser contemplada com energia elétrica. Com a criação do teatro peças famosas e óperas atravessavam o oceano para se apresentarem em plena selva Amazônica, em uma cidade longínqua, porém muito rica.



Visão frontal do Teatro Amazonas

Claro que com tanta nobreza e tanto costume europeu o teatro a ser construído teria que ser “O TEATRO” inspirado nos teatros europeus e construído com muito requinte, sem economias para atender a população exigente e rica da época. Cada peça veio de uma parte da Europa, o ferro foi trazido da Inglaterra; o bronze, da Bélgica; o cristal, de Murano com exceção da madeira que era brasileira mas precisava viajar e voltar reproduzida em peças para compor o chão do Salão Nobre. Manaus era conhecida como a Paris dos Trópicos e precisava atender aos caprichos de seus habitantes. Viu desembarcar engenheiros, arquitetos, pintores e artistas para construir a obra de arte em forma de teatro.
Mas voltando aos tornozelos... Este Salão Nobre tão “disputado” pelos rapazes foi construído com muitos detalhes. O piso é feito com 12.000 pedaços de madeira pau-brasil, jacarandá, pau-marfim, pinho de riga e carvalho e são apenas encaixados, não há prego ou cola. Para visitar o salão os turistas não podem entrar calçados, usa-se um pro pé (proteção feita com tecido semelhante às máscaras descartáveis do hospital) ou pantufas próprias que são cedidas na entrada, tudo para não riscar o chão. Ao redor do salão são expostas várias obras com telas de linho lonado. Retratadas nelas estão à fauna, a floresta amazônica e os imortais da literatura e da música brasileira. A principal tela do lugar é uma alusão a 'O Guarany', ópera de Carlos Gomes, em óleo sobre tela com as molduras em ouro 14.



Glorificação das Belas Artes no Amazonas

O artista italiano Domenico de Angelis em 1889 fez a pintura do teto do Salão Nobre que representa a Glorificação das Belas Artes no Amazonas, anjos sobrevoam a floresta amazônica pintados em perspectiva. Com vários elementos que mudam de forma quando nos deslocamos, poderíamos enumerar mais de 300 efeitos na pintura. O mais famoso é a mulher que fica bem no meio do teto, se você olhar para ela e atravessar o salão ela te acompanha com o olhar, bem assustador mesmo! Outra é uma mulher que está sentada nua em uma cadeira de lado, quando você olha ela parece bem gordinha conforme você atravessa o salão ela começa a emagrecer e o braço muda de posição  (quem disse que photoshop é coisa atual!), naquele tempo acontecia na sua frente ao vivo. Outro efeito é um anjinho que se você olhar de um lado do salão ele está de olhos fechados quando atravessamos ele começa a abrir os olhos e do outro lado já está com os olhinhos totalmente abertos. Também há uma mulher que de um lado do salão está séria e do outro lado está sorrindo, você pode vê-la começar a sorrir andando de um lado para outro.

O salão é lindo, tem sacadas que dão visão para frente do teatro, lá as moças conversavam com os rapazes durante o baile. Na frente do teatro existe o Largo de São Sebastião, nome dado à integração da  Praça de São Sebastião, Monumento de Abertura dos Portos do Amazonas ao Comércio Mundial, Teatro Amazonas e Igreja de São Sebastião e vários prédios que relembram a Belle Epoque. Os prédios foram preservados e seus comércios ocupam o espaço relembrando os áureos tempos. O espaço é grande e acomoda o público nos mais diversos eventos que acontecem nesta praça, como o Natal no Largo e o Festival de Ópera. Denomina-se, hoje, de Centro Cultural.

Na entrada do salão há um espelho bem grande, chamado espelho da verdade, diz-se que ele retrata realmente aquilo que você é, por que seu ângulo é perfeito, uma ótima oportunidade para quem gosta de tirar foto do espelho. As mulheres da época adoravam se olhar antes de entrar no salão, coisa de mulher mesmo.

Mas a grande atração da casa sem dúvidas é o salão de espetáculos. Lindíssimo de se ver, cheio de detalhes e história para contar. O Teatro foi montado aos poucos com peças dos países da Europa, por exemplo, o Pano de boca veio da França e é um dos detalhes que mais chamam atenção, ele sobe inteiro até a cúpula, sem ser amassado ou dobrado, e sustenta a obra assinada por Crispim do Amaral, que retrata  a Yara, mãe d”água, e o encontro dos rios Negro e Solimões. O outro pano mostra a transição da Monarquia para a República. A base dos quatro pilares do salão principal, vistos de baixo, representam a base da torre Eiffel.


Salão de Espetáculos do Teatro Amazonas

O teatro possui 701 lugares. Qualquer ser humano se pergunta por que 701? Você já ouviu falar que todo teatro tem um fantasma? Então... nosso teatro também tem seu fantasminha e ele tem seu lugar reservado, é o 701. A cadeira não existe, mas o lugar sim, gostaria muito de vê-lo, mas ele é tímido, nunca se mostra.

Os homens também tiveram seu papel marcante neste ambiente, antes de olhar os tornozelos das meninas lá em cima no Salão Nobre, eles entravam  para o salão de espetáculos e se posicionavam atrás das mulheres, claro que a mulherada tinha que ficar na frente, afinal primeiro as mulheres. Mas, nesta época elas gostavam de usar uns chapéus enormes! E imagina o quanto isso tirava a visão, eles ficavam atrás e perdiam o melhor do espetáculo devido as proporções dos chapéus. Tentaram resolver da forma masculina de resolver as coisas, pediram para aumentar o preço de quem usava chapéu, ou deixava lá embaixo ou pagava um ingresso para o chapéu. A mulherada nem ligou por que elas não trabalhavam naquele tempo, logo quem pagava o ingresso delas eram os homens... os mesmos que inventaram o ingresso do chapéu, como sempre a opinião feminina prevaleceu, afinal era muito chique ir de chapéu e luvas para o Teatro, não dava para deixar o chapéu lá fora!

E estas madames eram muito exigentes, afinal não trabalhavam e apenas ostentavam a nobreza e gastavam o dinheiro dos Barões da Borracha, logo elas começaram a exigir, por exemplo, que não tivesse barulho de carruagens chegando, e, também, para dar um jeito no calor que era insuportável lá dentro. Lógico que o Amazonas sempre ficou na linha do Equador, logo era muito quente e imagine ir ao teatro de chapéu, com aqueles vestidos enormes e luvas, deveria ser um martírio, mas este problema logo foi resolvido, afinal as moças precisavam ter o conforto para assistir as peças e óperas da Europa.

Portanto, para atender ao pedido das moçoilas exigentes, recobriu-se o piso da lateral do teatro por onde as carruagens passavam com enormes mantas de borracha. Borracha não era problema naquela época, na verdade, ela era a solução transformada em dinheiro. Mas os saltos dos sapatos também faziam toc toc nas escadas, então recobriram com pedra de Liós de Lisboa, importadas de Portugal para acabar com a barulheira.

Mas e o calor? Não existia ar condicionado...



Sistema de refrigeração debaixo da cadeira.

Embaixo do teatro havia uma galeria e por baixo de cada cadeira fez-se um tampo redondo de ferro que se abria para sair a ventilação feita por enormes ventoinhas que ventilavam o interior da galeria onde eram depositados grandes blocos de gelo.

Gelo? Em 1896 na selva amazônica?

Também fiz esta pergunta ao guia e ele me disse que o gelo vinha em tubos de ferro de Portugal para as galerias, fazendo assim, às vezes de ar-condicionado e o teatro ficava fresquinho durante as apresentações. Como sempre, tem que ter uma mulher no meio para as coisas andarem e melhorarem.

Mais tarde esta galeria se se transformou em uma lenda. A lenda da cobra grande que dorme embaixo do teatro e até hoje acreditam nisso! Entenda o povo! Mas na verdade coincidiu com o fechamento da galeria por que se inventou o ar condicionado que, curiosamente, você não vê no teatro, apenas sente.



Camarote do Governador

O Teatro tem três andares, 701 lugares, 250 em poltronas e 450 em camarotes, e um lugar do fantasma, lembra? Todos recobertos por um tecido de veludo vermelho. No teto as pinturas representam a arte: dança, teatro, pintura e música. Em frente aos camarotes nobres, há 22 máscaras da tragédia grega representando Moliére, Shakespeare, Goethe, Mozart, Beethoven, Wagner e outros. O camarote principal de frente com o palco é ocupado pelo Governador do Estado. A ótima acústica do Teatro Amazonas dispensa o uso de amplificadores para espetáculos com instrumentos acústicos, corais, cantos líricos e outros. O enorme lustre feito em bronze francês e cristal italiano, que fica bem no centro, desce até a altura das cadeiras para manutenção e limpeza.



Bispo

Há uma história interessante também, relativa a “lugares” no teatro. Lembrando o episódio dos chapéus, há dois lugares, um de cada lado do palco chamados Bispos. Estes lugares são ótimos, mas para quem quer ser visto, para assistir não é uma boa opção, porém nesta época o pessoal queria era ser visto ao invés de assistir, então estes lugares eram caríssimos e muito badalados pela sociedade. Pelo menos lá não havia problema em usar chapéu.

Pelo lado de fora o Teatro também tem mais coisa para ser ver em especial, a cúpula que foi alvo de discórdia na época por que não gostaram do colorido exuberante que prevalecia com as cores da bandeira brasileira,  alguns  acharam que era uma mesquita (parece mesmo) e como tinha tanta influência de outros países até hoje há quem acredite em uma mãozinha muçulmana na história.

Mas a armação veio inteira da Europa com 36.000 escamas vitrificadas, verdes e amarelas de produção francesa e inspiradas no teatro deles (é óbvio) o Ópera de Paris. Quem não gostou ficou não gostando por que não modificaram até hoje. E os Barões queriam mesmo era gastar e encher a cidade com o luxo europeu e agradar suas mulheres é claro, elas mandavam lavar seus vestidos na Europa com a desculpa que as águas do Rio Negro iriam manchá-los. Essa era a maneira mais fácil de ganhar vestido novo, afinal tinha que ter outros para repor e, em Manaus , não tinha shopping tampouco lojas que fabricassem aqueles vestidos carésimos da época. Os vestidos levavam em média dois meses para ir e voltar e haja perfume francês, vestido, sapato, chapéu, mas enfim, dinheiro não era problema e a mulherada era muito esperta... sempre.



Teatro Amazonas - Cúpula

O teatro foi o primeiro monumento tombado em Manaus pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nos idos de 1966 e, entre candelabros, lustres, cortinas, estátuas, ouro e colunas, é uma obra de arte linda de se ver. Imponente com sua entrada, sua cor é rosa, mas já foi azul e sob protestos voltou a ser rosa. Recentemente um operário raspando a pintura descobriu embaixo da tinta placas de ouro, havia muitas camadas de pintura onde não deveria ser pintado, pois ali é ouro e não precisa de tinta.

O Teatro tem visitações diárias de segunda a sábado entre 09h00min as 16h00min. A visita dura 30 minutos e é feita com um grupo de dez a quinze pessoas levadas por um guia que pode falar as línguas: francesa, inglesa, alemã além da língua portuguesa é claro. Custa R$ 10,00 a visita. Pode fotografar sem flashes para não estragar as pinturas.

A programação se divide muito em festivais de Óperas, peças, apresentações e é sempre muito acessível ao público. Os eventos que são patrocinados pela Secretaria de Cultura do Estado são gratuitos ou é cobrado, como ingresso, um livro que vai para a Biblioteca Pública do Estado.

O Teatro continua sendo o ponto turístico mais visitado e símbolo de uma época áurea que tirou Manaus da escuridão e da pobreza. Como todos os ciclos que Manaus teve e tem, o ciclo da borracha deixou marcas para sempre na arquitetura da cidade. A Belle Epoque é conservada nos prédios até os dias de hoje, resgatar a cultura e origens é motivo de orgulho para enfeitar a cidade e mostrar que temos muito que contar além de nossa selva maravilhosa, nossa fauna e flora tão únicas.



Jardim do Teatro Amazonas - Manaus

Manaus é uma moça bela e formosa como aquelas que exigiam de seus Barões da Borracha o melhor para o lugar que viviam. Com seus vestidos europeus e seus chapéus encantadores as mulheres trouxeram para a cidade a beleza tão bem retratada até hoje. Perceba que o poder feminino está presente na história desta terra. Das Índias Amazonas às mulheres europeias que aqui moravam, Manaus é bela é vaidosa. O teatro é rosa, o boto é rosa, a cidade  é rosa!



Nas paredes havia OURO, que estava coberto por camadas e camadas de tinta


Mais algumas imagens do Teatro Amazonas.



FONTE: Blog Sociedade dos poetas amigos .blogspot





















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